Ao longo de uma carreira, nós veterinários nos deparamos com inúmeros casos, desde os mais simples até os mais complexos. Todos têm sua importância. Todos contribuem para nosso conhecimento. Todos os casos passados influenciam o tratamento dos casos que virão. Porém existem casos ímpares e esse que relatarei resumidamente é um deles.

Nenê era uma gatinha de 12 anos de idade. Foi diagnostica com diabetes melittus em agosto de 2009 e desde então estava sendo tratada por outro colega veterinário. Em outubro o “proprietário-avô” faleceu, e a pequena começou a descompensar…
Nesse momento eu paro a narrativa para argumentar com aqueles que renegam a fidelidade e o amor que os gatos têm para com seus proprietários-amigos:
Os gatos têm maneiras peculiares de demonstrarem afetos. Não pense que eles vão sair correndo, latindo e pulando quando você chega em casa do trabalho, pois um gato não é nem nunca será um cachorro pequeno.
O gato é capaz de amar profundamente uma pessoa, e demostrar isso ficando horas quietinho contemplando a vida ao lado dessa pessoa ou até de forma mais explícita. É uma forma diferente de exteriorizar o amor, porém quem convive com ele sabe e tem certeza da profundidade desse sentimento.

Voltando a narrativa…
Apesar de grande empenho da proprietária-mãe, o quadro começou a se agravar… A gatinha começou a perder cada vez mais peso, o apetite passou a diminuir, a glicose sanguínea atingiu níveis altíssimos, e outros tantos eventos que contrinuiram indiretamente para uma piora rápida do quadro clínico.
Quando atendi pela primeira vez a pequena em meados de novembro, ela estava com um quadro clínico gravíssimo denominado cetoacidose diabética. Comecei o tratamento emergencial para tirá-la desse quadro. Consegui… Mas todas as “sequelas” que poderiam ocorrer, ocorreram!
Foram 30 horas de luta: fluidoterapia, reposição de potássio, glicose, insulina, sonda de alimentação, inúmeras picadas da orelha para medir a glicemia… Nesse meio tempo ocorreu a temível falência hepática… Mas todos nós continuamos nos agarrando na esperança e lutamos fazendo sacrifícios gigantes.
Porém cometemos um grave “erro”… Fingimos não ver o que a Nenê nos falava em silêncio… Nos concentramos apenas em escutar o que nossos corações queriam, que era ela lá junto de nós, custasse o que custasse. Mas era só olhar para os olhinhos dela que víamos o quando a Nenê estava exausta com aquela luta. A vida fugia com o brilho do olhar que praticamente não estava mais lá. Mas o amor das proprietárias e o que eu também acabei tendo por ela nos fazia negar e renegar que o tempo tinha se esgotado independente do que fizéssemos ou lutássemos.
Nenê sofreu uma parada cardiorespiratória… Ressuscitei-a… Ela soltou um miado rouco, como se estivesse se despedindo, e depois se foi… mas dessa vez não voltou mais. Quem ficou foi a desolação e a saudade.

Talvez o colega veterinário que esteja lendo esse post se pergunte: “Mas o que tem esse caso de tão especial? Nós enfrentamos inúmeras situações de emergência. Perdemos outros tantos pacientes. Isso é normal!”
Então vou explicar as duas grande lições que aprendi:
- Os proprietários interessados, prestativos, zelosos, pró-ativos, que possuem milhões de dúvidas, etc. são nossos MELHORES aliados na luta pela melhora de nossos pacientes. Eles serão os melhores enfermeiros que encontraremos, os melhores monitores que existem, os melhores parceiros que podemos ter… Isso porque eles OBSERVAM, RELATAM, se SACRIFICAM não medindo ESFORÇOS, e são LEAIS às nossas orientações quando vêem que estamos 100% envolvidos. Sem esses proprietários nem os melhores protocolos terapêuticos, nem a mais sofisticada internação seriam capazes de salvar a vida de um animal. Nós precisamos deles!
- Buscamos escutar a todas as indagações e solicitações dos proprietários, da equipe de funcionários da clínica, de tantas outras pessoas… mas muitas vezes esquecemos de parar um minuto olhar para o animal e “perguntar”: o que você quer? o que você precisa? o que você quer que eu faça por você?
Nos concentramos em fechar um diagnóstico e estabelecer o protocolo terapêutico. Mas será que aquele protocolo (apesar de ser o correto e indicado para a causa primária do problema do animal) é suficiente para aliviar o sofrimento dele? Não necessariamente! Estamos desatento a isso! Precisamos ouvir mais nossos pacientes, que não falam palavras bem articuladas, mas são extremamente explícitos em seus desejos.
Estou incentivando uma postura mais intimista entre veterinário-animal. Incentivo a reservarmos um tempo para tomarmos consciência do que aquele animal responderia caso perguntássemos: “o que te incomoda?”. Eles manifestam sentimentos e são capazes de sofrer uma infinidade de desconfortos… E o que estamos fazendo para mudar isso?
Sempre busquei ser uma veterinária que não poupa esforços para salvar seus pacientes, cuidando com carinho e competência, etc. Até então acreditava que realmente escutava meus pacientes. Mas me recusei a ver que desde a primeira troca de olhares, a Nenê já estava dizendo que o fim havia chegado.
A Nenê me mudou e já começou a surtir efeitos na nova “Dra. Camila pós-Nenê”. Recentemente atendi uma Cocker Spaniel de 8 anos que subitamente parou de comer e ficou apática. Durante exame físico ela apresentava muita dor abdominal. Fizemos ultrassonografia e adivinhem… Ela está com linfoma grau V-b. Metástase em todos os órgãos! Mas pasmem. Até há 2 dias ela não demonstrava nada!!!!
Nesse estado do câncer, não há muito o que fazer… a expectativa de vida é de dias, no máximo algumas semanas. Íamos fazer eutanásia. Porém o que a estava incomodando realmente? Ela me “respondeu”… Era dor! E com esse assunto eu não brinco em serviço! O tratamento está sendo pesado! E adivinhem? Ela está ótima, apesar da evolução do câncer estar extremamente rápida. Os olhos brilham, ela brinca, come, corre, late… e não será mais eutanasiada (por enquanto). Quem sabe conseguimos começar a quimioterapia essa semana? Por que não tentar? Já respondi ao apelo dela! Agora responderei ao dos proprietários!
E essa é a lição da Nenê: a vontade/necessidade do paciente tem que vir antes de tudo, mesmo que vá contra os protocolos mais reconhecidos e recomendados. O bem-estar é prioridade número 1! A cura é a número 2! Sempre!


Esta é a Nenê, cuja ausência nunca poderá ser prenchida!
Obrigada Nenê, Karina e Lili, por confiarem no meu trabalho e por terem contribuído para que eu seja uma veterinária melhor, que realmente tem o paciente como sua prioridade!
Obrigada Nenê por ter sido um anjo, um doce e aceitado com resignação todas as picadinhas, manipulações, falta de privacidade e a presença constante dessa veterinária que não te deu sossego.